O mundo inteiro foi enviado para o "cantinho do pensamento"

Considerações sobre saúde mental em situação de pandemia


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Pra ter uma vida razoavelmente “ok”, vivemos nosso dia-a-dia sem ficar pensando na possibilidade de uma catástrofe a qualquer momento. Acordamos e seguimos nosso planejamento diário de atividades, que variam de acordo com a rotina de cada um (estudos, trabalho, autocuidado, interação pessoal ou virtual, etc.). E nessa correria paramos cada vez menos pra refletir sobre o que nos torna humanos e insubstituíveis (melhor do que qualquer robô): nossos sentimentos, escolhas, limites, laços, e comportamentos diante de tudo que o mundo pode nos provocar.

A atual situação caótica de saúde, representada pela pandemia do COVID-19, está nos fazendo viver experiências emocionais inéditas. É como se um terremoto viesse nos chacoalhar e derrubar as barreiras que a gente construiu ao longo de toda a vida pra fingir que vivemos em segurança, e aí nos damos conta de que: somos frágeis, vulneráveis e temos pouco (pra não dizer nenhum) controle sobre a natureza e o futuro.

Todo mundo teve que abortar uma série de planos de vida em função da quarentena - medida fundamental pra preservar a nossa saúde, das pessoas próximas e das que nem conhecemos. Uma viagem, uma festa, o trabalho, um almoço em família no fim de semana, uma aula, encontrar algum amigo, visitar uma pessoa querida, ir a alguma loja...

Além do balde de água fria sobre nosso planejamento, vem o pânico diante do adoecimento em massa, da vulnerabilidade e da morte. Você já tinha parado pra pensar tão seriamente que as pessoas que você ama são mortais? Você também é mortal! Na vida real não tem super-herói, não tem superpoderes (lembra que somos humanos?); e diante desses imprevistos, a vida nos convida a ser mais humildes e mais honestos ao refletir sobre nossos limites. 

Estamos em um momento intenso de readaptação. A essa altura, a sua família ou círculos de convivência tiveram que se reorganizar completamente; até as nossas demonstrações de afeto foram contidas: temporariamente não haverá abraços, beijos ou apertos de mão. Você já descobriu outras formas de cultivar seus afetos?

Precisamos nos lembrar (porque talvez tenhamos esquecido naquela correria que a gente finge que controla) que as palavras são formas poderosas de amor; e que poucas demonstrações são tão incríveis quanto quando você é capaz de escutar as pessoas que você ama; escutar de verdade (sem achar que tem um palpite melhor pra dar, que a sua opinião é mais importante, ou logo falar de alguma coisa da sua vida em cima do que alguém te contou). Escutar MESMO. Você já fez isso?

Cabe lembrar que, em tempos de distanciamento social, dá pra termos momentos importantes de diálogo amoroso por ligação, chamada de vídeo, escrita (o que não substitui o olho no olho, mas é um improviso possível nesse momento). Vale aqui toda invenção que mantenha viva as práticas indispensáveis da sua vida.

Ser criativo é o desafio da situação de crise. Assim como outras formas de praticar afeto, muita gente tem rebolado pra se exercitar, trabalhar, estudar, ter lazer - dentro de casa. Olha, está tudo bem se você não consegue produzir um monte de coisas no seu período de quarentena (cada um tem seu ritmo e preferências), mas o que não podemos é ficar paralisados por causa das angústias que estamos experimentando nesses dias.  

É claro que o distanciamento social gera sentimentos difíceis de lidar: sentimos medo, ansiedade, tristeza, desatenção, saudade, solidão... E ainda por cima, o “isolamento” tem uma conotação muito negativa na nossa cultura: nos faz lembrar das pessoas que são aprisionadas porque cometerem algum crime, ou de quando éramos crianças e ficávamos de castigo.

É como se o mundo inteiro tivesse sido colocado no “cantinho do pensamento”, o que, apesar de remeter a memórias ruins, pode indicar que esse é um momento de avaliar nosso comportamento individual e comunitário. Acompanhamos nos noticiários belas atitudes de solidariedade, comunhão e altruísmo em tempos de crise, e, ao mesmo tempo, ações extremamente egoístas da humanidade (estoque de itens de higiene, o desrespeito às recomendações científicas sobre segurança, o preconceito contra as pessoas infectadas, a minimização da vida das pessoas que representam grupos de risco, etc.).

Tudo isso é motivo suficiente pra reavaliação da conduta pessoal, não é? Nossa fragilidade não é só física, é principalmente emocional, e nessa circunstância o medo ativa nossa necessidade de nos defender da ameaça da doença. Entretanto, o que tem ficado evidente em todo o mundo é que só poderemos nos proteger se co-la-bo-rar-mos.

Talvez seu sono e apetite estejam alterados, e você tenha alguma dificuldade de estabelecer sua rotina, já que ela se transformou completamente nos últimos dias. Tudo isso influencia a nossa saúde também. Por isso, é importante que você busque manter alguma organização nos seus horários, que procure atividades que tragam pequenos prazeres no seu dia.

Além disso, a informação confiável (e de qualidade) sobre a pandemia é importante pra que você tome as medidas necessárias de autocuidado, mas sem se sobrecarregar. Respeite sempre seus limites, e não se culpe pelo que você não conseguiu fazer. Esse é um momento atípico, e tudo vai acontecer de um jeito diferente do que você tá acostumado mesmo. A boa notícia é que esse período vai passar!

Preciso dizer mais uma coisa importante. Se você sentir que a quantidade de sofrimento e preocupação que você está sentindo é bem maior do que você consegue dar conta nesse momento, procure ajuda profissional. Vários profissionais da Psicologia estão disponíveis pra fazer atendimento online, e essa ajuda pode ser fundamental pra que você consiga atravessar momentos difíceis.

Sentimentos ruins são normais nesse momento. Seria incoerente esperarmos que as pessoas tivessem sentimentos muito positivos em situações ruins e de dificuldade. A angústia que você está sentindo pode te ajudar a refletir sobre a sua vida. A solidão pode te dar dicas sobre o que você acha da sua própria companhia. O medo te faz tomar boas medidas pra se proteger. O que quero dizer é que todos os sentimentos que você está sentindo têm uma função, por mais complicado que seja aceitá-los.  O que não é normal agora é fingir que não está acontecendo nada.

Nós só conseguiremos enfrentar as complicações da vida se encararmos a realidade honestamente. Teríamos uma catástrofe ainda pior se a população não acreditasse que a COVID-19 é um problema! Felizmente dá pra constatar que a maioria compreendeu as recomendações das autoridades de saúde e assumiu a sua responsabilidade no enfrentamento dessa crise: estamos em casa. (Se nossa profissão permite, é claro). E por mais difícil que seja ficar em casa, é a forma de cuidarmos da higiene e prezarmos pelos mais vulneráveis.

Não dá pra criar um mundo à parte na nossa cabeça onde os problemas não existem ou não vão nos atingir. Vale lembrar que super-heróis só nos filmes e que o Olimpo já tem deuses suficientes. Nós somos frágeis, mortais, limitados, e a vida é justamente o que fazemos diante do nosso limite. Talvez, saúde mental nesse momento seja justamente encararmos o problema e nossos sentimentos, e perceber que podemos fazer escolhas mais inteligentes, saudáveis e empáticas.

Olhar nossos limites de frente exige coragem, e essa pode ser uma oportunidade muito enriquecedora pra nossa vida, porque ela HUMANIZA. A pandemia não vai fazer milagres psicológicos e de repente todo mundo vai mudar a forma de ver e levar a vida, mas toda oportunidade de pensar sobre coisas que nunca pensamos antes tem o poder de ser transformadora.


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Texto por:

Psicóloga Dayane Dias Braz
Dayane Dias Braz | CRP 09/01091

Psicóloga Clínica e Hospitalar. Pós graduada em Gestão em Saúde Mental. Estudiosa das contribuições da psicologia nas situações de adoecimento. Inventando formas de humanizar o cuidado do sofrimento.



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